Helena acorda decidida. Vai mudar a vida em 2009. Pedirá demissão do emprego. Não irá casar-se. Comerá gordura trans. Cabelos longos, música erudita e flores estão cortadas deste ano novo. E o gato não viverá mais. Pega o bichano com as duas mãos, cheira-lhe o pescoço, aproxima-se da janela do apartamento e joga o animal. Dá as costas pra cena. São quinze andares.
Ele cai desfalecido.
Uma passante da casa dos setenta anos toma um susto com o acontecido. Olha o gato, perplexa. Segura a respiração. A bola de pêlos chacoalha-se e fica em pé. A mulher com olhos lacrimejados ergue-o até seus seios e abraça forte carinhosamente. Você é meu agora, pensa.
Já em casa decide dar um banho no gato. Quer tirar a cor avermelhada do que restou do sangue nos pêlos do felino. Coloca-o dentro da máquina de lavar. Ele reclama, mas mesmo assim ela o fecha e aperta o botão “lavagem rápida”. Gira. Gira. Centrifuga. Quando a senhora sobe a tampa para retirá-lo, ele está desmaiado. Tremendo, ligeiramente puxa-o de dentro dali, põe ele numa caixa de papelão cheia de jornal do dia. Deixa tudo na rua pro caminhão do lixo levar. Entra na casa, tranca a porta e dirige-se ao pequeno altar para rezar.
Miau. Os três meninos ouvem. Param. Escutam novamente. Miau. Entreolham-se. Sorriem. Vasculham a caixa pra encontrar o danadinho. O menor pega e passa pro maior. O do meio carrega a antiga casa do gatinho. Encontram mais cinco garotos na rua. Estão decididos, vão jogar futebol. Com o gato. Dentro da caixa. Selam com fita isolante para que o bicho não possa escapar. Um deles dá o primeiro chute e o restante acompanha. Gritos. Miados. Gemidos. Silêncio. Todos ficam em torno para ver o produto da brincadeira. Sangue, muito sangue. Alguns correm. Outros fitam assustados. Abandonam o local depois de alguns minutos.
O felino estrala o corpo e fica em pé. Tranquilamente lambe seu corpo para desfazer do líquido espesso. A caixa está no meio da rua. É noite. Um carro aparece. O homem está nervoso e bate com força no volante quando avista o obstáculo no meio caminho. Bufa. Xinga. Bufa. Xinga. Decide sair do carro e tirar a porcaria da caixa de sua frente. Mas um gato põe a cabeça pra fora do recipiente. O motorista franze a testa. Então é a p*rra de um gato, e não é que parece com o da Helena, balbucia. Um dos motivos da brigas com a namorada é justamente o gato dela. Ele toma uma decisão. Acelera. Atropela sem dó.
Pára o veículo alguns metros do homicídio. Observa pelo retrovisor que há ainda alguns movimentos. Decidido e com raiva, volta de ré com toda força contra o gato. Espera. Estaciona de qualquer jeito. Abre a porta e desce para conferir seu delito. Demora-se um tempo ali. Não tira o olho do alvo. Parece ofegante. Pensa em seguir seu rumo.
Miau. O homem menea a cabeça como quem não quer acreditar em algo. Fica de cócoras.
Agarra o gato lameando-se com sangue. Encara-o. O bicho pisca duas vezes e tenta arranhá-lo. Desgraçado, esbraveja. Gira o braço. Gira rápido. E estatela o peludo numa parede branca, que desaba sem vida no chão.
Retorna ao carro todo malhado de vermelho e sai cantando pneu. Sem crer naquilo.
A menina acorda com um choro fino embaixo da janela de seu quarto. São aproximadamente cinco da manhã. Miado. Miado ininterrupto. A garotinha não consegue mais dormir. Levanta molenga. Olha entre as frestas de madeira. Mãe tem um gato chorando lá fora, avisa. Mãe tem um gato chorando lá fora, repete. Vai dormir Lívia! - advertem-na. Fica emburrada. Cautelosamente abre um pouco a janela, joga um pedaço de pano. Vem, vem, sobe aqui – cochicha.
O bichano obedece. Está imundo e fedido. Você precisa de um banho, diz com pena. O gato pisca. Lívia decide fazer isto quando todos estiverem acordados. Enrola ele no pano. Bem apertado para que não fuja. Não emporcalhe a casa. Não incomode seu irmão. O animal tenta se desvencilhar da amarra. A menina adormece. O gato sem poder respirar morre.
O irmão acorda e vê o gato da caixa na cama da menina. O gato morto. Aquele mesmo do futebol macabro. Chega perto do embrulho e conclui o mesmo de ontem. Está morto. Com medo de ser acusado do assassinato, ele corre até o quarto dos pais e grita sem parar: a Lívia matou um gato, a Lívia matou um gato...
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Em falar em gato, eu penso em Elza Soares, que tem voz felina.
Chico Buarque e Elza Soares
Façamos
Composição: Chico Buarque
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Li nesta sexta-feira que passou um post ótimo no blog Teratologia.
O Corso tem um estilo bem diferente do que lemos tanto aqui na blogosfera, quanto por aí em outras mídias.
Gosto do que ele escreve, confesso que primeiro tive que me acostumar com seus textos, agora está no meu TOP 10. =]
Para lerem a brilhante postagem do dia 10/01, cliquem aqui.
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Caros e únicos,
Farei o post com as respostas das perguntas feitas pra a Dra. Tchutchuca na próxima postagem.
Agradecemos a credibilidade. Hahahahha
Aperto forte
6 horas atrás


33 comentários:
uhauihaiuah curti esse texto. filosófico e bem humorado. uma das combinações perfeitas. vc vê... por coinscidência, minha gata deu cria, umas duas semanas atrás...
cara, não tenho muita presença de espírito, e não sei como agradecer, a não ser com um grande obrigado.
qualquer dia vou te mandar um gato por sedex...rs
abração!
Pobre gato, parece um daqueles gatos de desenho do Pica-Pau! Tudo isso deve ter ocorrido em uma segunda-feira, não há outra explicação, todas as segundas são nefastas para os gatos especialmente...
Acabei de voltar mas ainda não postei nada, mas postarei algo em breve... Hiper-abraço do conde :)
Menino! Odeio gatos e amei o texto! Com todas as letras e miados! Moinnnnto bom!
Muack!
O Conde tem razão, sem dúvida é uma segunda-feira, agora entendo porque o coitado do Garfield odeia as segundas, rsrsrs
Sempre um texto muito bom, aqui não se perde viagem, rsrsrs
Assisti ao filme Cria Cuervos, já viu? abraços!
Vida de gato... morte de gato.
Quem sabe, com um fenômeno de metempsicose, ele renasça como um
soberbo tigre e tenha então sua vingança.Valeu!
Mesmo detestando gatos, tô com pena do gato...
Que imaginação é essa hein?! Deve ter judiado de muito gato na tua infância né?!
saber viver é uma arte...
e o medo ñ existe.
FAÇAMOS.
hihi
abraços
>>
Haaa imagine se nós humanos tivéssemos as sete vidas.
Que tremenda descgraça!!!
Tinha saudade dos teus textos!!
Beijão!
Genial! Ótima idéia, muita criatividade. Como sempre, sensacional, mas tenho que confessar que eu não gostei... rs
Abração
estupendo, fenomenal.
tu é dos bons. e depois, gatos são tudo num conto.
sorte e luz.
Hahaha.. pior, serve como construção... que nem o Vâmvú, eu também não gostei. Escrevo, porque você encara numa boa, já que tua escrita é 10. Quanto a Elza Soares, não é do meu tempo (ainda bem), mas é ótima. Voz ímpar! Creia meu, que gato tem sete vidas, mas lá no fundinho, ele tem uma só. O resto é limbo, felino Adriano. Abraço!
A historia go gato é otima Adriano, e o irmao espertalhao passando a culpa para a irmanzinha....rss
E fico aguardando as resposta da psicologa...rss
Abraços
Só porque eu acabei de adotar um gatinho, quanta malvadeza hahaha. To muito sentimental com os felinos, apesar de me matarem de alergia.
CONTUDO, texto per-fei-to! Quando você pega para escrever, sai de baixo né Dri?
Beijos amore.
Meu Deus, eu chorei de pena do gato, juro. Vontade de jogar a Helena amarrada numa bigorna depois de arrancar os pelos dela com pinça de sobrancelha e fazer o mesmo com o resto dos personagens.
Parabéns, Adriano. Mexer com a minha emoção é coisa difícil, e vc sempre consegue.
Beijo!
SENSACIONAL esse texto... sério... desperta várias emoções... E mais legal ainda é o final sem clichê...
Caraca! coitado do gato!
Por que será que na maioria das histórias eles sempre levam a pior?
Já me disseram que gato é bicho do demônio... Outros dizem que é de bruxa.
Eu por exemplo, acho que é malígno, mas não abro mão do meu, rsrs..
Parabéns pelo conto.
às vezes devemos deixar nossos sentimentos abafados... tenho me machucado com os pensamentos q tô emitindo... como diz meu amado "essa raiva só faz mal pra ti"...
Coitaaaaaaaado do gatinho!
Sofreu horrores...
Putzzzzz ki azar, de que adiantou mesmo ter sete vidas..
E o pior, a minha chará, que teve a melhor das intenções acabou levando a culpa pelo tal "assassinato"...
Adoreiiii a historia!
P.S.: Brigada pelo comentario, bacana encontrar um Queiroz tbm hehehe
bjaum
oieeeee
seja beeem vindo
;)
tah doido???
se ele ( meu chefe)lesse eu estava lascada rs rs rs
ninguem que eu conheça tem acesso a meu blog..só minhas irmãs
assim espero
tem muita coisa aqui que me poria em confusões se as pessoas q conheço tivessem acesso
rs rs rs
bjinhos docinhos
ir em busca da felicidade é o que há...
Elza Doares tem vóz felina?/ só se for um gato com um problemão na garganta, abrass rapá
E quem mata é a única que não teve a intenção real. Me lembrou o filme do Cemitério Maldito. Sei lá, acho que fiquei torcendo pra que o gato voltasse mau e se vingasse.
Ótimo seu texto. Ótimo.
beijasss
Meu, que dó do gatinho.
Já imaginei a Hanninha acabada assim. Coitada. ><'
hauiahaiuahaiuhaiuahaiuh
Mas é muuito bom, muito mesmo.
Justo a garota que queria cuidar dele, acaba o matando. O amor mata! hahahahaha
Beijos, querido
Belo exercício de maldade.
gostei.
Muito bom o texto! É de fazer pensar mesmo... rs
Beijocas
Gostei... uma atitude ruim, outras ruins, pq pra mudar de vida temos que machucar algo, para descontar a raiva temos que atacar quem não tem culpa, para sustentar as nossas manias...
abrazz
Achei esse gato muito MALVADO! ah esqueci! todo gatuno tem 7 vidas. Mas tenho que complementar essa: Se tem 7 vidas, portanto terá inevitavelmente 7 mortes.
Parabém!
Pedx
que gato é esse!?
nossa, que fim triste, achei que o namorado da Helena ia levar o gato de volta pra ela...hihiihi..
num queria que ele tivesse morrido no final...
tenha um bom final de semana!
*.*
Nossa, coitado do gato, morri dó do bicho, deu até tristeza.
Obrigado pela visita no meu blog,
volte sempre.
Um grande abraço,
Átila Siqueira.
Hummmm...
Que gostoso seu espaço...
Invadindo para conhecer... e ler!
Gostei de tudo aqui...
Voltarei mais vezes...
Beijos avassaladores
hehehe
valeu pelo com...
de foder poemas de foder...!
tem um que eu especialmente gosto, do brecht... saca só...:
"Mulheres minhas, infiéis, adoro amá-las:
Vêem meu olho em sua pelve embutido
E têm de encobrir o ventre já enchido
(Como dá gozo assim observá-las).
Na boca ainda o sabor do outro homem
Ela é forçada a dar-me tesão viva
Com essa boca a rir para mim lasciva
Outro caralho ainda no frio abdômen!
Enquanto a contemplo, quieto e alheio
Do prato do seu gozo comendo os restos
Esgana no peito o sexo, com seus gestos
Ao escrever os versos, ainda eu estava cheio!
(O gozo ia eu pagar de forma extrema
Se as amantes lessem este poema.)"
:oD
abrasssssssssssssss
Será se a tchtchuca conhecia esse gato pelas esquinas da vida?
i bet she did!
Pedro
rapaiz...
te add no msn, tbm... ok?
eh ramasipeteffi
abrasssssssssssssssss
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