Faz mais ou menos três anos que não tinha telefone celular. Não gosto. Até acho desnecessário. Há controvérsias, eu sei. Mas, ontem minha mãe me deu um. Na hora, eu me senti invadido, como se minha privacidade corresse água abaixo. A idéia de que possam me encontrar em qualquer lugar, aonde eu estiver, me assusta. Eu gosto de ficar só, andar, ir ao cinema e, às vezes, sentar numa mesa de bar comigo mesmo. Faz parte de mim. Namoro, tenho muitos amigos, que aliás, são ótimas companhias. Mas quem me conhece sabe que preciso muito do silêncio turbulento e pacífico que é o estado de solidão. MInha mãe, além de me dar o aparelho, escreveu-me uma carta com palavras doces, fiquei bastante emocionado. Ela estava apreensiva e quase não dormiu na noite passada com medo de que eu brigasse e não quisesse o presente. Se fosse dado por outra pessoa, realmente eu teria um colapso. Será que foi um complô? Vai saber.
Antes deste episódio, eu tinha ido ao médico com meu amigo e na sala de espera, um destaque na capa da Revista Planeta saltou ao meus olhos: "Lixão Eletrônico". Fui na página indicada pelo sumário e comecei a ler a matéria sobre o e-waste (lixo eletrônico) que a Europa e os Estados Unidos mandam para alguns países africanos, asiáticos e do leste europeu. O caso levantado era de Gana. O e-waste são televisores, computares, celulares e outros, que contém compostos químicos como chumbo, mercúrio e cádmio altamente prejudiciais a saúde, que podem causar danos irreversíveis. O pior é que muitos ganeses sobrevivem da extração de alguns materiais, por exemplo o cobre, destes aterros e lixões.
Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos só 14% dos computadores jogados fora são reciclados e estima-se que em 2010, 100 milhões de celulares e 300 milhões de PCs serão despejados em algum lixão. Toda esta porcaria vai pra onde?
Quem sofrerá com isso? Aumentarão o percentual de reciclagem? Investirão em políticas públicas nestas nações? Seguro saúde?
Estou lendo "Vida Líquida" do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que cita um apontamento de John Reader "se cada pessoa na Terra vivesse com tanto conforto quanto um cidadão da América do Norte, precisaríamos não de apenas um, mas de três planetas para suprir a todos". Aonde nós vamos achar mais dois planetas como o nosso? É legítimo continuar consumindo desta forma?
Vejo pessoas que trocam de celular três vezes por ano, querem o último modelo de monitor, tem todos os mp's que pode-se imaginar; será que não podemos ficar com um aparelho por 2 anos? Ou até mais?
Não precisamos de tudo que a tecnologia nos oferece.
Neste quadro que pintamos, consumo consciente parece utópico.
Agora eu tenho um celular, vou ficar com este aparelho até quando não for mais possível usá-lo. Se por algum motivo me roubarem ou eu perdê-lo em menos de dois anos, espero que não, já que é presente da mama, só terei outro quem sabe daqui dois ou três anos. Sejamos empáticos conosco, com outros povos, países e principalmente com o planeta Terra.
Para ler a matéria citada, clique aqui.
Para ver fotografias sobre e-waste de Robert Knoth feitas em Lyari, Paquistão, clique aqui.
Aperto Forte!
6 horas atrás



