Pages

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Bomba Atômica

Por RobertoPiva

Na última entrevista concedida à grande imprensa nos meados dos anos 50, o filósofo Martin Heidegger, perguntado sobre o que ele achava da Bomba Atômica, respondeu: "Qual delas? Esta de agora, ou aquela que explodiu há 2 mil anos?". "Como assim?", perguntaram os jornalistas atônitos. Heidegger acrescentou: "Pois quando Cristo falou: 'Meu reino não é deste mundo', ele detonou a primeira Bomba Atômica".
De fato, a visão do mundo judaico-cristã, com seu Deus situado fora do Tempo & do Espaço imobilizado na Eternidade, representa a concepção mais antiecológica de que temos notícia. "Meu reino não é deste mundo" significa que o mundo poderá estar entregue a todo tipo para este ponto de vista o planeta Terra é um lugar de passagem, "vale de lágrimas", um lugar de expiação.
Não é sem motivo que os romanos perseguiam os cristão sob a acusação de que era ateus, pois não adoravam os deuses do panteão romano cada um deles representando uma paixão humana ou deusas agrárias representando a fertilidade & generosidade da Terra, como Ceres & Cibele, sem falar do Baco (Dionísios para os gregos), deus da uva, do vinho & das bacanais que na Grécia & Roma tinham um sentido religioso. Com o advento do Cristianismo, ocorreu a dessacralização do mundo, que para os pagãos era o povoado de deuses. "O que for feito à Terra, recairá sobre os filhos da Terra" diz o ditado dos índios peles-vermelhas, adoradores do peiote, do Sol, da Lua, do coiote & do falcão. Amnésico & anestesiado pela civilização urbana industrial, robotizado em seus sentimentos, limitado em sua visão pelos edifícios & muros das cidades o homem moderno não sente mais alegria cósmica & pagã de participar de um nascer do sol de um crepúsculo, do silêncio das ilhas perfumadas, do instinto, da imensidão, dos mares silenciosos, das estrelas. Reprimindo a criança que existe nele, o homem moderno aniquila os desus do júbilo em seu coração. Deixa de improvisar sua vida, enquadrando-se na marcha uniforme da sociedade organizada & vestida.

=====================================================

Texto extraído do livro "Estranhos sinais de Saturno", terceiro volume de obras reunidas, do poeta Roberto Piva, organizado por Alcir Pécora.


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Copos sujos

Hoje eu acordei hostil
Porque percebi que certas
virtudes
            são vícios disfarçados
Então me levanto
E me olho deitado na cama
Nu
   as pernas entreabertas
   o pau jogado sobre
   os pelos bagunçados
   um corpo morno
            recém-acordado
Meus dedos me tocam levemente
os lábios estão secos
prontos pra rachar

Saio do quarto
Volto com o cigarro na boca
E encostado no batente
Observo silencioso
Eu me tateando
Como um estrangeiro

É quase triste
É quase céu nublado

Eu comporia um requiem
Com a fumaça que
faz desenhos no ar
pesado deste quarto
 
Para meus vícios
ficarem novamente doces
ou amargamente belos
 
Meu eu divido em uma
         grande orquestra

Assim eu ficaria menos vil
e os cacos de vidros
seriam apenas vestígios
de alguns copos sujos
ou de um homem
que acordara angustiado


==========================================

 
Confutatis - Verdi
Orchestra e Coro dell' Accademia Nazionale di Santa Cecilia, Roma
Regente: Antonio Pappano
Solista: Rene Pape 
 

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Desespero

No choro da freira
que expele o feto no vaso sanitário
No sorriso da atriz
que coloca mais 200 ml de silicone
No gemido abafado daqueles
que trepam no banheiro do shopping
No silêncio do gordo
que abre a porta da geladeira a noite
No medo do homem
que procura outros corpos no escuro dos cinemas pornôs
No desejo do marido
que se veste de esposa
No mendigo com frio
que mija-se para aquecer-se
No adolescente afoito
que ejacula nos primeiros movimentos
No último gole de pinga daquele
que quer esquecer
No pulo do suicida
que desistiu do mundo
No virtuoso pianista
que perdeu o movimento das mãos

No ouvir não, quando quer ouvir sim
No grito de quem apanha
No queimado, no afogado

No desespero daqueles segundos ermos
que não há como esconder-se

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Mariposas

Para Daniel e Ricardo                                                                                                                                                                                                      

Como feiticeiros loucos e velhos
sentados em cadeiras de plástico
entre as pernas úmidas da Augusta
entre pedidos e pedintes
Enforcam com a mão esquerda
tantos
ismo
ismo
ismo
ismo
ismos comuns
nas bocas molhadas por barbies geladas
línguas nervosas por traduzir
ideais indecentes
tufões de ideias
vistas
revistas
istas
istas
istas
outros tantos istas
como istas
bebi istas
Obscenos que chacoalham cabeças peludas
Barbadas
Zumbem como mariposas mezzo soprano
em volta de uma luz distante
pequena
fascinante
para bêbados nas calçadas
para putas ingênuas
para aqueles sem-terra
para tolos sonhadores
como nós.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A raivosa voz paulistana

Apresento hj umas das poesias do livro "Um estrangeiro na legião", primeiro volume das ácidas obras reunidas do poeta Roberto Piva, organizado por Alcir Pécora.

 A Piedade


Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentosos adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos                                                                         

==================================

E para encerrar o post, Dadid Bowie com "Life on Mars" do álbum Hunky Dory de 1972.